Registro Místico 4: Penetra no Conselho dos Sábios

Fonte: Recessos da memória. Data: Setembro de 1995. Local: Fortaleza. Experiência: Projeção psíquica. Tipo: Conclave. Relevância: 7.

Meu mundo em um quadrado

Em 1995 eu tinha 18 anos, estava no 3º ano Científico e já havia me decidido por Artes Plásticas. Queria ser artista a todo custo, especificamente um “desenhista de histórias em quadrinhos”.

A parte mais movimentada do ano já havia passado, com todas as confusões emocionais típicas da idade, e algumas outras bastante atípicas. A sequência dramática de eventos amorosos havia me deixado traumatizado e com uma forte tendência ao isolamento e à introspecção.

Já não buscava mais as velhas amizades, paqueras ou noitadas, confortando-me com a leitura de um Ferreira Goulart ou García-Marquez, e absorvendo-me indefinidamente na confecção de desenhos, quadrinhos e poemas.

Havíamos nos mudado para uma outra casa, ainda naquele bairro modesto de ruas estreitas e casas coladas umas nas outras, a Cidade 2000.

A nova casa era ampla, velha, com portas e janelas de madeira escura e o piso de uma cerâmica cinzenta e aconchegante. Tinha uma garagem lá atrás com uma mangueira frondosa e bem carregada, que filtrava os raios de sol nas horas mais quentes do dia. Os muros da parte de dentro do quintal mostravam manchas de chuva de um verde vivo e brilhante.

O Lucas já trabalhava com informática e ficara com o quarto maior. Fábio e Clarice, filhos da minha mãe com o Paulo, tinham um bom quarto para eles. Eu fiquei com o quartinho no canto da sala, que imaginei haver sido arquitetado para ser um escritório.
Era o meu mundinho particular. Ali, passava longos fins de semana na mais absoluta e deliciosa solidão.

Tu não és digno!

Em uma noite qualquer, adormeci.

Estava escuro. Caminhei um pouco, era a sala. O clima estava nebuloso, parecia haver uma névoa cinzenta preenchendo o espaço, abafando a vista, deixando tudo meio embaçado.

Foi então que percebi: Eu estava dentro de um sonho! Mas eu estava acordado, lúcido. Aquilo era real, ou apenas uma criação da minha mente? Eu não sabia ao certo, e, na verdade, não importava. A minha curiosidade de explorador se acendeu e eu fiquei muito empolgado! Eu queria ver tudo, e estava livre para me aventurar nesta nova realidade!

O meu raio de visão, porém, estava estreito. A partir de uma certa distância, uns dois ou três metros, tudo ficava mais escuro e embaçado.

Consegui discernir alguns detalhes da sala de estar, como a TV, o sofá, e a porta de saída. Mas resolvi não ir para lá. Seguindo o meu sentimento, fui para o corredor, em direção à cozinha. Acreditei, não sei bem o porquê, que poderia haver algo de mais interessante do lado de lá.

Segui pelo corredor, chegando até a cozinha. Ali estava mais escuro ainda. Percebi alguém se aproximando. Ouvi a voz, era uma mulher, de vocabulário popular. Ela reclamava de alguma coisa, e sua voz ecoava, reverberando nas paredes e teto. Por um instante fiquei confuso, sem conseguir saber de onde vinha a voz. Mas era certo que a mulher se aproximava, e eu não queria ser descoberto.

Então, resolvi me esconder em um canto da cozinha. Não sei direito como cheguei ali, era como um armário de vassouras, com (pasmem) algumas vassouras, esfregões e rodos. Eu tinha certeza de que aquilo não existia na casa “real”, por mais que eu não fosse o responsável pela faxina.

Fiquei quieto no meu canto e vi de relance se aproximar a silhueta de uma senhora, meio baixa, gorda e forte, com braços de biscoiteira. Estava imersa na névoa cinzenta e embaçada que impregnava o ambiente, e por isso não pude distinguir muito bem as suas feições.

De repente, eu estava um pouco mais acima, a observá-la próximo ao teto. Ela continuava a reclamar e praguejar, aproximando-se de onde eu estava. Finalmente me percebeu, e disse algo como: “Você está aí! Como assim? O que está fazendo aqui?”.

Me senti bem incomodado, e um tanto ameaçado. Mas eu me sentia cada vez mais leve, e comecei a flutuar para cima. Então subi e subi, vendo a cozinha cada vez mais de cima. As paredes pareciam se alongar e acompanhar o meu movimento, até que ficaram extremamente altas.

A mulher reclamou, esbravejou, mas a sua voz foi ficando abafada e distante. Continuei a subir e acelerar, e logo eu estava voando rapidamente, totalmente envolvido pela escuridão. Houve uma transição, perdi a consciência por alguns instantes.

Então vi a água do mar… brilhante, refletindo o sol… era de um azul cristalino e profundo, os reflexos amarelos e cintilantes. Senti uma grande alegria, uma euforia, um prazer imenso em voar tão rápido sobre aquelas belas águas. Logo, houve uma outra transição. Um pausa. Tudo ficou calmo. Aos poucos recuperei a visão, e contemplei a paisagem.

Lembro dos mínimos detalhes, até hoje. Era uma pequena ilha, belíssima, verdejante, com várias pedras e ilhotas ao redor. Eu via pessoas, pássaros, barcos. O mar estava calmo e era de um azul claro, intenso, brilhante. O reflexo fragmentado do sol nas águas tranquilas lembrava pequeninas estrelas a brincar. Apesar de não conhecer este lugar, de alguma forma, eu sabia que estava no Rio de Janeiro.

Tive a impressão ver um grande ser, translúcido, etéreo, vestido de branco e com chapéu, deitado por detrás da ilha.

Fiquei contemplando a paisagem por um tempo, e, sem muita demora, começou outra transição. Quando dei por mim, eu já estava em um outro lugar. Era grande vale, também verdejante, muito belo. Uma área rural, de clima ameno e até meio frio. Lembro das colinas e montes cobertos daquela vegetação rasteira, de um verde saturado e vívido, claro. Havia um caminho, uma estrada sinuosa, que me levava para frente, curvando-se de acordo com a geografia ondulada do local. O Vale Esmeralda.

Segui brevemente por esta estrada de terra amarelo-ocre, até uma curva à esquerda. Lá, um pouco mais à frente, havia um tipo de construção. Era um complexo amplo, semelhante a um castelo, cidadela ou forte da era colonial. Possuía vários anexos que pareciam construídos em épocas diferentes. Continuei até o que parecia ser a entrada principal, atravessei-a e subi por uma escada.

Lá em cima, cheguei a um salão. Era um cômodo aconchegante, um tanto adornado, com vários móveis antigos de madeira escura. Havia uma grande parede de vidro por onde entrava a luz e podia-se ver a paisagem lá fora.

Havia uma mesa arredondada, onde ao redor estava, de pé, um seleto grupo de pessoas, a discutir algum assunto muito importante. Eram altos, de cabelos escuros e lustrosos, e, apesar do requinte clássico do ambiente, vestiam-se com trajes aparentemente tribais, feitos de couro cru, costurados de forma tosca, com rasgos e remendos.

Sem a menor cerimônia, me aproximei da mesa e passei a escutar o que falavam, pelo que entendi, algum tipo de estratégia militar. A minha presença, porém, não foi muito bem-vinda. Todos fazem uma pausa, olham para mim e continuam a reunião com um ar de tolerância forçada.

Um jovem magro, de feições e angulosas e levemente orientais, cabelos longos e lisos, e músculos muito bem definidos, presidia a reunião. A sua camisa de couro era cortada nas mangas, formando pontas rústicas e angulosas. Ele parecia carregar um objeto escuro preso à sua cintura, provavelmente uma espada. Em alguns instantes ele parou de falar e oulhou-me com severidade. Por detrás dele estava a parede de vidro, por onde eu podia ver com grande nitidez a paisagem verdejante.

O jovem magro deixa o seu posto na mesa, aproxima-se de mim. Posso vê-lo bem de perto agora. As suas feições de desagrado e incômodo são evidentes. É como se a minha presença ali fosse inapropriada, como se eu não fosse digno de participar daquela reunião.

Percebo, porém, que ele não se dirigia a mim, mas a alguém que estava às minhas costas: Uma moça. Não consegui vê-la com clareza, pois se esquivava do meu campo de visão e sua figura parecia embaçada por algum tipo névoa ou véu.

O jovem magro passou a argumentar com esta moça, e ela o contra-argumentava. Não lembro das palavras exatas, mas era certo que ele se queixava e reprovava a minha presença ali, e ela me defendia e justificava.

Depois de uma breve discussão, é como se eu tivesse recebido a permissão de estar ali, no Conselho dos Sábios. O jovem magro, contrariado, volta a seu lugar na mesa e encerra a reunião. Logo, retira-se. Mas, antes de sair, volta-se de ombros e dirige para mim algumas palavras severas, das quais recordo apenas o sentido geral: “Vamos ver se você é alguém que vale à pena!”.

Minha memória fica nebulosa depois deste momento, mas aconteceram ainda algumas outras coisas, antes de eu acordar.

Esta experiência, altamente lúcida e vívida, é uma de minhas projeções psíquicas mais marcantes e importantes, pois é estrutural na composição de minha mitologia pessoal. Ser um mendigo, um indigno, a invadir um conselho de sábios, e participar sem convite de conclaves e missões, são fatos recorrenter em minhas “Viagens Psíquicas”.

Esta experiência é muito importante, também, por apresentar dois personagens que me acompanhariam em diversas ocasiões através dos anos: O jovem magro, que se revelaria como “Lambert”, é um temível espadachim de tradição taoísta. E a jovem, que me auxiliou, se revelaria como “Krysta” também conhecida como “Alma da Festa”, é uma respeitada mestre ligada à diversão e sexualidade.

Para mim, é uma honra participar do Conselho dos Sábios. Ainda que eu seja o menor e mais fraco todos, ao menos estou cercado por seres magníficos.

Assista a este relato em vídeo!

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@pedro_ponzo
Místico, Artista, Professor
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